Pelos prados que rastejas, pelas montanhas que escalas, por toda parte te acompanho em pensamentos aflitos. A água que te falta, o sono que adia, a comida que te suprimem também compõem parte de minha agonia. Em tuas marchas, pés com bolhas, rosto pintado, faca na mão, também lá estou desbravando contigo suas missões. Jamais te deixo só, com meu coração te sigo feito sombra em dias de sol e vagalumes nas noites de negrume intenso. Os grilos cantam no silêncio e você se aproveita do escuro para se tornar invisível com sua camuflagem. Mas te vejo, sempre te vejo com meus olhos que enxergam distantes tuas privações. São tantos dias de campo. Eu aqui sozinha, inquieta e agoniada. Tu aí, marchando em fuga, seguindo suas estratégias, seus cálculos, suas missões. Uma semana bem maior que um ano inteiro. Uma hora, enfim, sempre acaba. E me apareces assim, lindo e de repente. Já de longe te avisto na rua, coração na boca, alma nos olhos. Transbordo, sem conter, e num riso, num choro, numa explosão, abro os braços.
Você, meu guerreiro, diante de tanta bravura, aí, dentro desta farda engomada, se despe da força e volta a ser menino. Sinto a respiração sufocada no abraço silencioso. Jogado na cama, adormece desfalecido de dor. E me deixa sozinha com sua imagem. Queria te ouvir, te olhar, me tocar. Mas só pode oferecer seu corpo esvaziado de toda energia. Sentada, meus olhos passeiam pelas curvas. A luz amarela torna os contornos mais ondulantes dos seus músculos. Sinto nas mãos o roçar do cabelo raspado e sorrio. Tantos dias que se arrastaram solitários até eu poder te ver assim, frágil, meu. Nas mãos tantos calos, farpas de madeira, cortes. As pernas cheias de picadas de carrapato e de formigas. Rosto magro. Calos nos ombros por causa das caminhadas com mochila. Queixo esfolado pelo capacete. Meu Deus, o que fizeram com você? Abro o guarda roupa e busco um lençol. Te cubro com a delicadeza de quem teme te despertar da paz de um sono pesado. Sua farda pendurada no cabide me faz pensar em quanto sofrimento deve-se suportar para ter a honra de vesti-la. Porém, esse é o destino que escolheu e como meu coração também te escolheu, só me resta cuidar de você para sempre. Essa será minha silenciosa missão. E logo chega a hora de você ir embora de volta. O meu corpo ainda não criou imunidade para a despedida. Sempre fica anestesiado cada vez que o ônibus chega para levar um pedaço de mim e me sinto como num procedimento cirúrgico. Arrancam a melhor parte sem que eu nada possa fazer, pelo contrário, tenho que conceder de bom grado.

